Otimização da Nutrição de Vacas Leiteiras: Da Fisiologia ao Diagnóstico no Terreno | Informações Técnicas


A ZOOPAN, em parceria com a TECHNA realizou, no passado dia 21 de janeiro, uma ação de formação em nutrição e auditoria a explorações de vacas leiteiras: Açores - Nutrition Training + Dairy Cow Audit. Esta ação foi direcionada para os técnicos de nutrição da Cooperativa União Agrícola, CRL, na qual estiveram presentes técnicos de outros departamentos. Reforçou-se a competência zootécnica, abordando detalhadamente os mecanismos fundamentais da digestão dos bovinos e a metodologia de auditoria em exploração.  O objetivo foi abordar o tema do controlo das alavancas nutricionais, de forma a maximizar o potencial do efetivo, prevenindo, simultaneamente, distúrbios metabólicos.


 Os Fundamentos:

Estabilidade Ruminal

O desempenho leiteiro assenta, acima de tudo, no correto funcionamento do rúmen, um complexo fermentador anaeróbio que alberga bactérias, protozoários e fungos. Para otimizar a digestão, é imperativo manter condições estáveis (temperatura de 39-40 °C, pH entre 6 e 6,5 e um nível elevado de humidade entre 80 e 90%, que permita que a fermentação decorra corretamente).

A utilização conjunta de energia (hidratos de carbono) e proteínas é essencial para a síntese dos Ácidos Gordos Voláteis (AGV), verdadeiro combustível da vaca, bem como para a produção de proteínas microbianas.


 A Auditoria Nutricional: Uma Abordagem Global

Para identificar fatores limitantes na exploração, o método de auditoria proposto pela ZOOPAN/TECHNA baseia-se numa observação cruzada da alimentação, das fezes e do próprio animal.


 1. Análise da água

A auditoria começa com a avaliação do que a vaca ingere. Para além da composição teórica da ração, o acesso a água de qualidade é essencial, uma vez que esta é o principal constituinte do organismo. As necessidades são elevadas (4 litros de água por kg de matéria seca ingerida) e a qualidade bacteriológica deve ser monitorizada para evitar perturbações gastrointestinais ou mastites.

2. Análise da dieta

Para além dos valores teóricos, é a estrutura física da forragem que se revela determinante. A utilização do separador de partículas (peneira Penn State) permite validar o tamanho das partículas, assegurando um trânsito e uma digestibilidade ótimos. O objetivo é respeitar o equilíbrio entre a regulação física (enchimento) e metabólica da ingestão.

 

3. Exame das fezes

O exame das fezes pode fornecer uma grande quantidade de informação relativa à natureza da alimentação (matéria seca, teor em fibra, hidratos de carbono fermentáveis, azoto degradável e minerais). Os testes da bota e da luva devem ser considerados em simultâneo. A informação obtida permite explicar alterações ocorridas nos últimos 1,5 a 4 dias (tempo necessário para que o alimento ingerido percorra todo o trato gastrointestinal).

- Teste da bota: consiste em pisar uma placa de fezes frescas e avaliar a sensação de sucção ao retirar a bota. Em seguida, observa-se a marca deixada e verifica-se a presença ou ausência de partículas não digeridas. As fezes são classificadas numa escala de 1 a 5. A pontuação 3 (fezes cremosas formando um "domo" de 2-3 cm) indica uma alimentação bem digerida. Fezes líquidas (pontuação 1) podem indicar excesso de azoto ou amido, enquanto fezes duras (pontuação 5) indicam frequentemente excesso de fibra ou falta de água.

- Teste da luva: consiste em apertar as fezes com a mão enluvada. Podem apresentar-se ásperas ou cremosas, homogéneas ou com frações sólidas; pode haver libertação de água entre os dedos e presença de partículas não digeridas, cuja origem e dimensão são avaliadas.

- Peneiramento das fezes: a lavagem das fezes numa peneira (malha de cerca de 1,5 mm) revela os elementos indesejáveis. A presença de fibras longas (> 1 cm) ou de grãos (inteiros ou partidos ainda contendo amido) indica digestão incompleta, potencialmente associada a trânsito demasiado rápido ou a baixa eficiência da flora ruminal.


 4. Observação do animal

A auditoria prossegue com uma observação detalhada do efetivo, de modo a detetar sinais fisiológicos:

- Ruminação e ingestão:

Uma vaca adulta realiza entre 7 e 12 refeições por dia e passa 6 a 8 horas a comer. Para prevenir distúrbios metabólicos e assegurar boa produção, a dieta deve ser bem equilibrada. Para além do equilíbrio produtivo, a alimentação deve permitir um bom funcionamento do rúmen e uma ruminação correta (entre 8 e 10 horas por dia). A observação dos animais a ruminar ajuda a revelar eventuais disfunções. Uma vaca deve efetuar cerca de 60 movimentos mandibulares por ciclo de ruminação. No início da tarde, mais de 75% do efetivo deverá estar deitado a ruminar; valores inferiores podem indicar problemas de fibra, défice proteico ou risco de acidose.

- Enchimento do rúmen:

A avaliação do rúmen fornece uma indicação do consumo alimentar e da velocidade de trânsito. Para tal, deve posicionar-se atrás do animal e observar o flanco esquerdo, verificando se o rúmen está cheio. O nível de enchimento permite inferir a ingestão, a velocidade de fermentação e a rapidez com que o alimento percorre o trato gastrointestinal. A digestão e a velocidade de trânsito dependem das características da alimentação (tamanho das partículas, sincronização do fornecimento de nutrientes, etc.).

- Condição corporal (BCS) e locomoção:

A classificação da condição corporal (escala de 0 a 5) em pontos-chave (anca, base da cauda) permite avaliar as reservas energéticas. De igual modo, é atribuída uma pontuação de locomoção para identificar claudicações, frequentemente associadas à alimentação.

- Outros sinais:

Sintomas como crostas amareladas nos olhos, pelo eriçado ou edemas indicam desequilíbrios (excesso de energia fermentável, carências nutricionais).

5. Interpretação dos desempenhos e patologias

A análise da qualidade do leite e da ureia permite afinar o diagnóstico. Os resultados das análises ao leite (teor de gordura e proteína) são utilizados para avaliar o estado metabólico. Por exemplo, um baixo teor proteico no leite indica frequentemente défice energético, enquanto um baixo teor de gordura pode indicar acidose. Contudo, quando combinada com a análise da ureia, a interpretação pode ser diferente: se o teor de ureia for elevado, confirma-se o défice energético; se for baixo, a causa será mais provavelmente um défice de azoto degradável.


 6. Distúrbios metabólicos

Na apresentação destacaram-se distúrbios importantes como a Acidose Ruminal Subaguda (SARA) e a Cetose (Tipo 1 e Tipo 2 / Síndrome da Vaca Gorda). Abordou-se, ainda, o risco das micotoxinas (como DON, zearalenona e fumonisinas), salientando que o rúmen não consegue desintoxicá-las completamente.


 7. Caso prático

Para validar de forma concreta os conceitos teóricos abordados em sala e praticar a utilização das ferramentas de diagnóstico (peneiras, grelhas de pontuação), foi posteriormente realizada uma auditoria completa numa situação real, numa exploração agrícola.


 Zoopan: Conhecimento no campo, resultados na exploração

A ZOOPAN, pertencente ao Grupo Lusiaves, é uma empresa portuguesa de referência no sector da nutrição e saúde animal, com uma atuação fortemente orientada para a produção pecuária moderna, sustentável e eficiente. A sua missão assenta no desenvolvimento de soluções técnicas integradas que promovem o bem-estar animal, a rentabilidade das explorações e a qualidade dos produtos de origem animal.

Esta ação de formação técnica vem no seguimento da sólida parceria de mais de 20 anos entre a ZOOPAN e a Cooperativa União Agrícola CRL, em que mais do que fornecer produtos, a ZOOPAN posiciona-se como um parceiro técnico estratégico, apoiando o produtor na tomada de decisões fundamentadas e orientadas para resultados sustentáveis a longo prazo.


Rui Alves, engenheiro zootécnico