Evolução do melhoramento bovino em São Miguel | Informações Técnicas


Desde sempre se verificou a preocupação por parte de qualquer criador, independentemente da espécie animal, em selecionar os seus melhores exemplares para serem utilizados posteriormente como reprodutores. Este facto sustenta a regra que só utilizando os melhores, se obtêm melhores performances. Logicamente na bovinicultura acontece exactamente o mesmo.

Foi prática comum ao longo dos tempos, os agricultores seleccionarem os vitelos filhos das suas melhores vacas para serem os futuros reprodutores, ou então, recorrerem às explorações consideradas de elite, para adquirirem futuros reprodutores no sentido de uma aproximação do ponto de vista genético.

Embora já fosse utilizada em alguns países, nomeadamente nos Estados Unidos da América, só no final da década de sessenta, foi adotada nos Açores a técnica que veio revolucionar todo o melhoramento genético a nível global, a Inseminação Artificial (IA). Inicialmente executada por técnicos dos serviços de desenvolvimento agrário (junta pecuária de então), limitada apenas a um número relativamente reduzido de animais e de explorações.

Depois da fundação da AASM, a partir de 1988 o serviço de IA passou a ser executado por esta organização. Os técnicos de então (dos quais alguns ainda se mantêm neste serviço), foram distribuídos por diferentes pontos da ilha, criando zonas que lhes ficavam adstritas. Para além do trabalho de inseminação, estes exerceram um importantíssimo papel de divulgação, alertando para os benefícios que esta traria para as explorações e seus proprietários.

De forma gradual foram aumentando o número de explorações que aderiram ao projecto, até ser globalmente aceite que a IA é de facto o caminho mais correcto e que menores custos e riscos comporta.

A prevalência de algumas doenças infecciosas (nomeadamente a Brucelose), foi motivo para chamadas de atenção por parte dos técnicos, no sentido de alertar os agricultores para o risco que comportava a utilização dos reprodutores masculinos na perpetuação destas, contribuindo positivamente para a implementação da IA.

Com o aparecimento posterior de nova tecnologia na área da reprodução nomeadamente a transferência de embriões (TE), bem como a sexagem do sémen, o melhoramento tornou-se muito mais rápido devido a um considerável encurtamento entre gerações. Efectivamente com a TE, pode ser aproveitado o elevado potencial genético de uma vaca, para obter um número considerável de embriões, que depois serão implantados em outras vacas de menor potencial, conseguindo-se assim um elevado número de filhas em apenas um ano, bem como um enorme contributo no património genético da comunidade bovina.

Durante muitos anos os emparelhamentos foram feitos de forma empírica, assentes na experiencia e perícia conjunta dos agricultores e técnicos da IA, de forma a beneficiar das características positivas de cada reprodutor, bem como corrigir os defeitos existentes. Nesta altura quando a qualidade genética das manadas ainda não era tão evidente, optou-se por selecionar sémen proveniente de reprodutores muito equilibrados, tanto do ponto vista morfológico como produtivo, com o propósito de se obter uma rápida homogeneidade dos efectivos.                                                                                                                                                                                            

De forma voluntária, a escolha recaiu em reprodutores que apresentavam boas características especialmente para úberes e patas, por se verificar défice a este nível nos animais de então. Em poucos anos assistiu-se a uma revolução na qualidade genética das nossas manadas. Na comparação que era feita entre as manadas que aderiram à IA e, as que não aderiram, nomeadamente na componente produtiva e morfológica, a diferença era tal, que levou ao aumento do número de adesões a tal ponto, que mais de 85% das nossas vacas passaram a beneficiar desta técnica.

Alguns reprodutores, considerados hoje lendas da indústria da IA exerceram um impacto tremendo no melhoramento das nossas manadas. Podiam-se citar muitos nomes, mas seria injusto não realçar touros como o Blackstar, Chief Mark e Starbuck, quer através dos seus contributos directos, quer através dos seus inúmeros descendentes que entraram como reprodutores de top no circuito da IA.

Ao longo de todos estes anos, foi preocupação constante por parte da AASM disponibilizar sempre os melhores e mais adequados reprodutores, de acordo com as nossas necessidades, independentemente da nacionalidade ou proveniência, estando sempre na qualidade o motivo da escolha. Independentemente de poderem ter sido cometidos eventuais erros, o certo é que se conseguiu uma melhoria genética impressionante, capaz de orgulhar todos os agentes envolvidos neste projecto.

Mais recentemente, utilizando todos os recursos informáticos disponíveis, optou-se por trabalhar de uma forma mais orientada ou mais cientifica se quisermos, no sentido de escolher o emparelhamento mais adequado para cada animal. Com a criação do serviço de emparelhamento, conseguimos escolher o melhor sémen disponível, para manter ou melhorar os caracteres desejáveis que o animal já possui bem como corrigir os eventuais defeitos, excluindo sempre aqueles cruzamentos que iriam aumentar a consanguinidade.

É do conhecimento geral que a consanguinidade representa um enorme problema para qualquer comunidade, sendo particularmente evidente nas vacas Holstein, fruto de um melhoramento muito intenso e rápido. Quando elevada, os animais podem apresentar menor resistência a um sem número de doenças, bem como uma acentuada redução da fertilidade, daí a importância de um bom programa de emparelhamento que elimine esta possibilidade, contribuindo simultaneamente para a obtenção de vacas mais resistentes, mais férteis, com maior durabilidade e melhor uniformidade.

O melhoramento animal é um processo activo e dinâmico, que se adapta ao longo do tempo às necessidades dos produtores. É fundamental que os produtores continuem a insistir nele, porque como já foi largamente demonstrado só assim se conseguem obter animais de excelência, factos facilmente comprováveis quer através da observação directa das nossas explorações, nos concursos realizados ano após ano, bem como nos volumes e qualidade de leite produzido.

Como nota final e título informativo, os gastos com o melhoramento genético numa exploração bovina leiteira representam uma percentagem muita baixa dos custos totais, devendo ser interpretados como investimento no futuro e não somente como um custo.     

 

Dr. João Vidal